A História das favelas

De antemão, gostaria de dizer sobre a relevância de compreender a origem das favelas! Andamos de carro, muito provavelmente, em qualquer cidade do Brasil e… zás, avistamos uma favela!

Ao ligar a televisão, observamos os noticiários anunciando sobre o tráfico de drogas e ações de policiais. O “resto do mundo nos observa”, quase sempre, imaginando, construindo e reconstruindo vários estereótipos sobre “o tal país do carnaval”.

Trata-se do olhar do outro, daquele que vê de fora, o Brasil. Significa a maneira como os outros países nos veem. Mas será que somos aquilo que os cidadãos de outros países acreditam que sejamos? Somos isso e mais um pouco? Ou talvez, não sejamos nada disso. Perguntas e mais perguntas.

As favelas, o “ouvi dizer” e as “Representações”

Partindo de percepções preconceituosas, imagina-se um país tropical. Nele, existe o carnaval, festa, uma livre sexualidade. Em várias situações, ouvi vários europeus dizendo que não haviam pessoas brancas nas “terras de cá”. Sabemos que nem todas os indivíduos são preconceituosos. Entretanto, caro leitor, tive contato com algumas dessas falas. Além disso, algumas delas não eram aparentemente intencionais.

Olha, se eu dissesse aqui todos os absurdos que já ouvi… Pois bem, muito se ouve falar! Entretanto, não seria esse o momento de nos perguntarmos mais a fundo sobre isso que “se ouve dizer”?

Ouvimos dizer sobre as favelas. As Representações em relação aos aglomerados carregam determinadas visões. Amilcar Bezerra é doutor em comunicação pela UFF e professor do Núcleo de Design da UFPE. Ele também é coordenador da linha de pesquisa de Cultura Pop do Grupo de Estudos em Consumo de Moda.

Já Augusto Ribas, é bacharel em Sistemas de Informação pela UPE e graduando em Design pela UFPE. Ambos, juntos, escreveram um dos textos que aqui uso como base. O estudo discute sobre o conceito de “Representação”. Os autores o utilizam para analisar outra questão. Usarei aqui apenas a ideia de “Representação”.

De maneira resumida, segundo os pesquisadores acima, esse conceito está ligado à maneira como alguém “lê” o outro. Ou seja, como uma pessoa ou grupo percebe uma coisa, um objeto, uma pessoa, outros sujeitos e os representa! Essas representações podem acontecer por meio da arte, por exemplo.

Acesso em: 25 out. 2021.

As “Representações” e as favelas

As favelas são percebidas pelas pessoas, de maneiras diferentes. Não necessariamente as visões são as mesmas. Mas ao representá-las nos filmes, séries, músicas, etc, acabam mostrando as suas opiniões, visões, percepções e, relação aos morros, aglomerados, favelas.

Alguns artistas são parte desses morros, mostrando a sua resistência e potência. Outras, observam de fora, essa realidade. Como minha contribuição, digo que precisamos começar a olhar com mais atenção esses artistas que falam do lugar onde vieram, os chamados, “crias”.

Suas perguntas e visões em relação ao mundo que os cerca podem nos ajudar a perceber essa realidade. Mas mais do que isso, buscar soluções para esse problema social.

Fonte: Folha. Acesso em: 26 out. 2021.

Assim sendo, uma mesma favela pode ser apresentada por meio de filmes, pinturas, desenhos, entre outros, de maneiras diferentes. Isso pois, uma pessoa produz esse material. Em certos casos, pessoas, no plural. E por mais que essa pessoa possa tentar ser neutra, sempre coloca as suas ideias ali. Isso pode ser intencional, ou não.

Essas produções são, por nós, consumidas. Elas alimentam e/ou confrontam as nossas ideias sobre o tema. Além disso, não necessariamente aquela representação é exatamente a realidade vivida por aqueles moradores de uma determinada favela. Essa última, está em um determinado Tempo e Espaço.

As ciências e a Literatura

Já as produções, sejam elas, literárias ou cinematográficas, por exemplo, possuem liberdade criativa. Por outro lado, as ciências, inclusive a da História, precisam se comprometer com a ética. A História como disciplina tenta se aproximar, o máximo possível, daquilo que ocorreu no passado. A literatura pode se basear em fatos que ocorreram, mas não tem as obrigações da História. Existe uma área do estudo que se dedica a compreender História e Literatura, diferenças e proximidades entre elas.

A foto anterior mostra Carolina de Jesus, escritora de “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”. Considerada uma importante escritora brasileira, doutora Honoris Causa.

Produtos culturais, economia e o mundo

Alguns filmes que discutem sobre o tema das favelas, são vistos por indivíduos do mundo inteiro! Assim, todas essas produções culturais ajudam nesse “caminho”: construir e reconstruir as visões das pessoas sobre o assunto. Para alguns grupos, é interessante que esses cidadãos sejam descriminados. Para quem isso é interessante?

Mudando de assunto, em síntese, algumas produções culturais movimentam enormes quantias financeiras. O amplo mercado do entretenimento produz riqueza, emprega, movimenta a economia. Mas mais do que isso, leva ideias, discute temas importantes! Para melhor saber sobre alguns filmes que “Representam” e discutem algumas questões sobre o Brasil,

Também fiz uma parte dois! Para consultá-la:

Aviso que as histórias das favelas se relacionam com a distribuição de terras no Brasil. Para melhor entender essa relação,

Como é possível ver, as pautas escolhidas estão interligadas, assim como o mundo em que vivemos.

As favelas representam uma questão social! É uma realidade, um problema social! Mas para além disso, como já disse em outros textos, economia, sociedade, cultura, educação e saúde se relacionam. Assim sendo, um assunto não está isolado do outro! Em resumo, não há como tratar uma dessas temáticas sozinha! As várias áreas do conhecimento se relacionam. E juntas elas podem nos auxiliam a perceber melhor o mundo que nos cerca.

A escravidão

Para entender melhor sobre o surgimento das favelas, uso o livro de Schwarcz. Lilia Moritz é colunista no Jornal Nexo. As próximas afirmações dadas são conforme: “Nem Preto Nem Branco, Muito Pelo contrário: cor e raça na sociabilidade brasileira“. Para a doutora em Antropologia Social pela USP, as favelas e o fim da escravidão possuem relação.

Na mesma obra a autora diz que o término da escravidão se deu de forma lenta. Tratava-se de uma maneira de não causar problemas com aqueles que possuíam escravos. Olha a ideia de que se tratavam de objetos. Mas esses sujeitos resistiam, faziam sua história dentro das suas possibilidades. O imperador não queria que os donos de terras se voltassem contra ele. Manter o poder significava manter aliados.

Liberdade e resistência

Do mesmo modo, a luta do povo negro “fazia barulho”. Haviam fugas, formação de quilombos, mortes de senhores, “corpo mole” no trabalho, entre outras maneiras de resistir. Ricardo Ribeiro detalhava sobre o assunto no “Lições da Terra: projeto interdisciplinar de direitos étnicos“. O sociólogo é também doutor em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela UFRRJ. Sob o mesmo ponto de vista, os grupos abolicionistas cresciam.

Acrescento também, uma pressão externa. Sobre esse assunto, consultar os textos acima sugeridos, por sua vez, disponíveis no Boletim Econômico.

As leis garantiam liberdade gradual. Contudo, quando foi decretado o término definitivo da escravidão, grande parte dos sujeitos estava liberto. Isso pois, se organizavam para comprar sua carta de alforria. Em síntese, realizavam trabalhos extras, por vezes, sob acordos com os senhores.

Fonte: Negra tatuada vendendo caju. Museu Castro Maya, Rio de Janeiro. Acesso em: 26 out. 2021.

Além disso, outra possibilidade era o contrabando ou as irmandades religiosas . Em suma, tais organizações religiosas eram o espaço onde essas pessoas se reuniam. Dessa forma, pensavam em estratégias para libertar aqueles que mais urgentemente precisam. Por vezes, essa ordem está ligada a quem mais passava por castigos e violências. Para melhor saber sobre o assunto, consultar o livro de Lorene dos Santos, historiadora e doutora em Educação! Para além disso, uma das mais famosas obras de Caio Boschi, uma das maiores referências em pesquisa sobre o Brasil Colônia.

Acesso em: 26 out. 2021.

Sugiro observar as fontes das imagens! Os links contam com textos para melhor perceber essas pinturas e Representações. Afinal, elas possuem intencionalidades diferentes, são possíveis “Fontes Históricas“, produzidas por alguém em um determinado contexto.

A formação das favelas e a escravidão

Em conclusão, de acordo com todos os textos acima apresentados, quando a escravidão teve seu fim, esses sujeitos precisaram ocupar alguma área da cidade! Entretanto, os cidadãos com boas condições não queriam aquele povo perto de suas casas.

A doutora em Ciências Sociais, Julia Calvo, aponta que os sujeitos escravizados não receberam condições mínimas para um “recomeço”. Contudo, nos EUA, na maior potência capitalista, os libertos tiveram acesso a um pedaço de terra e animal para transportar suas produções. O simples ato deu um mínimo incentivo. Mas sabemos que muitas outras ações de reparação são importantes. Alerto a presença de guetos nos EUA. Será mesmo que tudo foi resolvido?

Fonte: Globoplay. Acesso em: 26 out. 2021.

No Brasil, sem a menor reparação, passaram a ocupar as favelas. Não possuíam condições de comprar casas. Além disso, trabalhavam em funções que outros não queriam. Moravam longe do centro da cidade!

Estudando um caso em específico

Vou aqui apresentar um texto que fala sobre o caso de Belo Horizonte. Mas ele pode nos ajudar a entender outras realidades. As favelas não são todas iguais!

Além disso, ela não é igual ao seu processo de fundação. Ela foi se transformando e é o lugar de vários movimentos. Lá, o povo se organiza em ONG’s, projetos sociais. São criadas maneiras de resistir, de pensar melhores condições de vida. Diante da violência e adversidades, resiste, cria maneiras de progredir. Mas sabemos também, que existem preconceitos e estratégias de manter essas pessoas à margem da sociedade.

Francis Cotta é pós-doutor em História Social da Cultura pela UFMG. Já Welington da Silva é doutor em Ciência da Religião pela UFJF. No artigo feito pelos pesquisadores apresentados, as favelas são chamadas de bolsões populacionais.

Em síntese, as favelas representam um local onde o Estado pouco atua. Por outro lado, o povo cria estratégias para ali morar. Em alguns casos, essas pessoas são desapropriadas. E levadas para morarem em conjuntos habitacionais. Por vezes, esses cidadãos não se adaptam às construções.

Mesmo que o estudo dos autores se foque em entender o caso de Belo Horizonte, pode trazer algumas pistas. Essa realidade social é complexa! Uma análise superficial não é o suficiente para saber a fundo sobre o tema.

Belo Horizonte e as favelas

As favelas que se localizavam no centro da capital são levadas para outras áreas mais distantes. Isso pois, não se acredita que o lugar do pobre seja no centro da cidade. Para os investigadores, várias famílias crescem sem planejamento. Além disso, apontou-se para a existência de familiares que invadem áreas próximas aos conjuntos habitacionais.

Da mesma forma, muitos desses conjuntos são construídos para retirarem esses sujeitos das favelas. O governo não cria regras claras, a falta de manutenção dos locais também é um problema. Em alguns casos, essas pessoas precisam utilizar de “gatos” pois não conseguem pagar as contas.

A cidade planejada

Em primeiro lugar, a construção da cidade de Belo Horizonte trazia a ideia de buscar esquecer o passado escravista. A capital foi transferida! Antes era Ouro Preto, com suas ruas estreitas.

Mas aquilo não representava a modernidade. O Brasil queria se tornar uma potência econômica. Eram necessárias ruas largas para levar os produtos. As ruas deveriam formar desenhos geométricos. O poder deveria mostrar sua força, com prédios imponentes.

Acesso em: 26 out. 2021.

Uma cidade rica, produtiva, com lugares de lazer para a elite. Esse mundo moderno queria esquecer do nosso passado escravista. Racional, essa cidade foi construída. Por outro lado, os seus construtores se “amontoaram”! A cidade foi criada dentro dos limites da avenida do Contorno. Ela circulava a cidade, separava aquilo que era bem visto e o que não fazia parte desse mundo moderno. Com o tempo, o crescimento foi desordenado.

Para compreender sobre a história da cidade de Belo Horizonte, consultar a tese de Mariana Raggi. Ela é doutora em Geografia pela USP. O filósofo Berman nos ajuda a entender o que significa essa tal Modernidade.

O avesso

Em resumo, as favelas representavam o contrário da ordem! Bem como necessitamos de lembrar da presença dos imigrantes pobres nos aglomerados. Áreas foram invadidas. Mas com o tempo, a prefeitura precisava “resolver” a situação. Criava conjuntos habitacionais, removia as pessoas. Em alguns casos, ofertava indenizações, mas que eram insuficientes. O resultado? Novas favelas eram formadas.

Não raro, certos conjuntos eram de construção barata e com pouca qualidade. Não atendiam às necessidades dos moradores. Frequentemente, as favelas que se localizavam em áreas nobres e/ou centrais, foram desfeitas.

Várias propostas eram criadas para resolver a situação, muitas eram interrompidas no meio do caminho. Afinal, uma das soluções foi a urbanização das favelas. Assim o poder público poderia melhor controlar a situação. Mas será que todas as demandas da população são atendidas? Precisamos pensar sobre a questão das enchentes e dos deslizamentos. Enfim, são situações ainda atuais.

Falta de estrutura, pertencimento, Constituição de 1988

Com a possibilidade de permanência de certas favelas, ocorreram crescimentos. Assim, os aglomerados se tornaram mais verticais. A falta de estrutura ainda é uma realidade. Os veículos de atendimento nem sempre conseguem entrar no espaço.

Segundo os pesquisadores, a falta de políticas públicas é um problema. Sem propostas claras, feitas com cuidado, as coisas não se resolvem. Devido à especulação imobiliária, várias favelas são empurradas para mais longe.

Os autores relatam que em alguns casos, são instaladas fábricas para empregar as mulheres e jovens. Indo além do texto, portanto, necessitamos de pensar que muitas dessas famílias não possuem a figura do pai. As mulheres são mães, trabalhadoras e possuem tantas outras funções na sociedade.

Na atualidade, a prefeitura é pressionada a se organizar. Em resumo, são criados órgãos para pensar alternativas e prestar serviço à esses cidadãos! Mas será que seus direitos como cidadãos são respeitados? A Constituição de 1988 diz que o direito à moradia é básico!

Por fim, um interessante ponto do texto aborda que o povo acaba se sentindo afastado dos centros da cidade. Marcelo Cedro, historiador e professor na PUC Minas, na disciplina de História e Cidades, trata sobre as barreiras invisíveis. Ou seja, em vários casos, essas pessoas não são proibidas de circular pela cidade. Mas não se sentem a vontade ou parte dela. Entretanto, criam fortes laços com a sua realidade local no aglomerado em que moram.

Em conclusão, observa-se aqui, um país desigual, onde nem todos possuem as mesmas possibilidades. Por fim, o poder cria estratégias propositais para separar essa população.

Acesso em: 26 out. 2021.

Considerações finais

É na arte que o povo favelado denuncia a realidade. Em suma, passaram a se organizar politicamente. Entretanto, a arte ainda é uma maneira de sensibilizar os outros indivíduos. Mas indo além disso, é uma forma em que nós podemos praticar o conceito de Alteridade, e nos colocarmos no lugar do outro. Ou seja, o historiador Todorov definiu Alteridade como a prática de ver o outro enquanto ser humano, entendendo as suas possibilidades, erros e acertos. Assim, significa ver os moradores da favela enquanto pessoas importantes para a nossa história., sociedade.

São grupos que trabalham, participam ativamente da sociedade. Produzindo, contribuem economicamente para a nação. Ao mesmo tempo, são cidadãos que merecem o devido respeito.

Necessitamos de ouvir o que eles tem dito sobre as situações que passam. Afinal, quem está dentro da situação vivendo nesse cotidiano, pode dizer ao restante da sociedade quais são as suas demandas. Afinal, não estamos sozinhos, precisamos criar uma sociedade cada vez mais justa.

O povo fala, sua arte também comunica algo! Para aqueles que não se sensibilizam, saibam, uma sociedade mais justa nos aproxima de nos tornarmos uma potência econômica.

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

(Sergio Vaz: Manifesto da Antropofagia periférica. Acesso em: 26 out. 2021.)

Enfim, gostou do texto? Além disso, conhece alguma Representação artística que descontrói essa visão estereotipada? Será que outras partes do globo têm acesso à essas produções? Comente aqui sobre algum filme, música, etc, que fale sobre a resistência e demandas desse grupo diverso.
Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anterior

Como foi feita a distribuição de terras no Brasil?

Próximo

O que é economia e por que é importante?