Trabalho doméstico e classe média: qual a relação?

Eu aposto que você já ouviu falar algumas vezes sobre divisão de classes, e sobre o trabalho doméstico.

Porém, não ouvimos falar com frequência sobre a relação que existem entre os dois. Por isso, hoje o BE vai te explicar melhor sobre essa pauta tão importante.

Afinal, o Brasil é um dos países com a maior população de domésticas do mundo. Então, se você quer entender os motivos disso e a relação com a economia, vem comigo!

O TRABALHO DOMÉSTICO NO BRASIL

Você sabia que, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), se reunisse todos os trabalhadores domésticos, o Brasil teria uma população maior que a Dinamarca?

População Dinamarca, para comparar com a quantidade de pessoas no trabalho doméstico
A população do país é de 5.817.000 habitantes (estimativa de 2019)

Além disso, essa população é composta, em sua maioria, por mulheres e principalmente mulheres negras.

Um estudo feito pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2019, mostrou que a proporção de mulheres que realizavam trabalho doméstico em 1995 era de 17%, e em 2018 reduziu para uma média de 14,6%.

Por mais que esses índices mostrem uma queda nos números, o estudo também verificou que entre essas proporções, o número de mulheres negras aumentou, sendo 18,6%, contra 10% de mulheres brancas.

A escolaridade das mulheres brancas em 1995 era em média 4,2 anos de estudo, passando para 6,9 anos em 2015, e no caso das mulheres negras em 1995 a média era de 3,8 anos e passou para 6,6.

Outro ponto é que até hoje o trabalho doméstico é uma das principais ocupações das mulheres no mercado.

Repense 5 atitudes com a empregada doméstica

Em seguida, outro dado analisado foi referente a quantidade de trabalho doméstico informal. Nesse caso, também teve uma piora, em 2013 tinha 30% de trabalhadoras com carteira assinada, e em 2018 caiu 1,7% desse número, ou seja, 28,7% de trabalhadoras formais.

Essa mesma pesquisa conclui que o trabalho doméstico ainda é precário, com baixo rendimento, discriminação e até assédio. Mais de 6 milhões de brasileiros ocupam essas atividades, como mensalista, diarista, motorista, babá, jardineiro e afins.

Entretanto, a maioria com baixa escolaridade e baixa renda, o que em outras palavras, alimenta um serviço desigual.

A CLASSE MÉDIA E O RACISMO ESTRUTURAL

Como vimos, o trabalho doméstico ainda tem uma base desigual, parte disso é pelo fato de que o privilégio de algumas classes, como no caso da classe média, permite que tenham empregados em sua casa.

Porém, o fato de podermos contratar alguém, ainda vem de um sistema escravagista. Então, mesmo que o trabalho seja remunerado, ele é muitas vezes mal pago ou desvalorizado.

Desse modo, mulheres e homens negros, ainda continuavam sendo escravos informais, o que caracterizou o mercado de trabalho.

Veredas do Tempo: Uma Senhora de Algumas Posses em sua Casa - Jean-Baptiste  Debret
Pintura de Jean-BaptisteDebret retratando o espaço doméstico no Brasil do século XIX visto por ângulos distintos: o da mulher branca e o da mulher negra.

Para contextualizar, o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão (1888), e na época da escravidão, era marcada por ser de pequena posse.

Em outras palavras, quase todas famílias tinham servos, pois qualquer um que fosse um pouco mais favorecido financeiramente, conseguia comprar escravos facilmente.

O FIM DA ESCRAVIDÃO?

Após a abolição, com tantas mudanças na época, precisava-se de uma “ordem” para que as coisas caminhassem.

Entretanto, criaram mecanismos para dividir classes, e uma das formas que tinham para realizar isso, era através do trabalho.

Afinal, o trabalho era, e ainda é visto como uma forma de conseguir ascensão socioeconômica, e junto com viés racial, pessoas de cor foram alocadas em trabalhos informais e inferiores.

Na época, era muito comum ter anúncios de emprego nos jornais que requisitava negros para fazer trabalho doméstico, ou então, com cunho racista, como abaixo:

Punição a anúncio racista gera divergência na Promotoria de MG - 24/06/2021  - Cotidiano - Folha

TRABALHO DOMÉSTICO X CLASSE MÉDIA

Um marco da relação entre a classe média e o trabalho doméstico, foi a PEC das domésticas em 2013.

Essa proposta concedeu a esses trabalhadores os mesmos benefícios devido aos demais na Constituição de 1988.

Ou seja, todos os patrões devem pagar hora extra e respeitar o limite de 44 horas semanais da jornada de trabalho.

Com isso, a classe média teria custos mais altos para manter os empregados e para não abrir mão dos funcionários, o trabalho doméstico informal passa a ser uma “alternativa”.

Além disso, o cenário trouxe uma mudança, pois a classe média se viu ameaçada pelo aumento de poder de consumo dos empregados.

Sendo assim, os trabalhadores domésticos estavam conseguindo viajar, fazer compras, proporcionar estudo aos filhos e a relação de dependência começava a diminuir.

Todo esse cenário gerou um conflito político, econômico e social entre essa relação de empregador e empregados domésticos.

Por fim, se você quiser complementar esse texto e entender mais sobre os direitos trabalhistas, clique no botão abaixo:

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E aí, você já sabia de tudo isso? Me conta aqui nos comentários o que achou do artigo e a sua opinião sobre essa relação!

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1 comentário
  1. Nesse texto, mostra o quanto já mudaram as leis e o comportamento da humanidade, já é um avanço.
    Mas há muito que fazer ainda, para melhorar a desigualdade…

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