Se você acompanha notícias de economia e política brasileiras, provavelmente já ouviu falar em “tripé macroeconômico”. No entanto, mesmo sendo um conceito de grande importância para a economia brasileira, muitas pessoas não entendem o que o termo significa.

Hoje, falaremos um pouco mais sobre o termo e como ele é utilizado na economia. 

Como surgiu o Tripé Macroeconômico?

Antes de mais nada, é preciso entender que o tripé macroeconômico é uma junção de políticas econômicas.

Essa estratégia econômica foi adotada no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e entrou em vigor em 1999. O plano foi implementado pelo presidente do Banco Central à época, Armínio Fraga.

Naquele ano, o Brasil ainda atuava com o câmbio fixo, que vigorava graças ao Plano Real de 1995. Porém, o câmbio fixo trazia alguns problemas à economia do país, como pontuou o próprio Armínio Fraga, em 1999:

Armínio Fraga e o Tripé Macroeconômico

O que se tem hoje é uma mudança que dá à taxa de câmbio uma função diferente da função que ela tinha antes. Antes o Governo dizia para a taxa de câmbio: ‘você toma conta da inflação.’ e dizia para a taxa de juros: ‘você toma conta do balanço de pagamentos.’, que é um regime de taxa de câmbio fixa. Hoje nós estamos escalando o time de forma diferente. Nós estamos dizendo para taxa de câmbio: ‘você toma conta do balanço de pagamentos’ e para taxa de juros: ‘você toma conta da inflação’. Agora, nada disso funciona sem uma boa política fiscal”.  

Por este motivo, foram formuladas 3 ferramentas que se tornaram o conhecido “tripé macroeconômico”:

  • Meta fiscal 💰
  • Meta de inflação 🎈
  • Câmbio flutuante 💸

Meta fiscal

A meta fiscal, também chamada de “meta de superávit primário”, é um teto de gastos governamentais.

Assim sendo, ela se refere ao valor de arrecadação e gastos que o governo federal deverá efetuar. Essa quantia é estabelecida pelo Congresso Nacional por meio da Lei Orçamentária Anual (LOA), que deve ser votada ano após ano. 

O governo federal não pode, de acordo com a LOA, gastar mais que o estipulado. A transgressão dessa lei imputa crime de responsabilidade fiscal e pode levar ao impeachment do presidente da república.

No entanto, caso as autoridades federais queiram ultrapassar esse valor para realizar políticas fiscais, podem pedir a liberação do congresso, que avaliará a situação.

Clique aqui para ler nosso post sobre políticas fiscais

Meta de inflação

Do mesmo modo que a meta fiscal, a meta de inflação é um valor que deve ser estipulado pelo Banco Central a fim de manter o controle da inflação no país. 

Por outro lado, a meta de inflação não possui um valor fixo, mas sim um valor central que pode variar para mais ou para menos. Dessa forma, o Banco Central estabelece um piso (mínimo), um teto (máximo) e um valor ideal (central). Com isso, a inflação anual deve ser controlada de modo a estar dentro deste teto e piso.

Ainda mais, a meta de inflação também é definida anualmente e deve ser cumprida pelo Banco Central por meio dos instrumentos econômicos que podem controlar os preços dos produtos, como as políticas monetárias.

Clique aqui para ler nosso post sobre políticas monetárias

Durante a década de 90, a inflação foi um problema presente na vida dos brasileiros. Logo depois, com o Plano Real em 1995, o problema começou a ser resolvido.

O Tripé Macroeconômico contribuiu, em 1999, para a manutenção dessa estabilidade, como mostra o gráfico da inflação no Brasil entre 1990 e 2000.

Inflação no Brasil em 1995
Fonte: The Global Economy/Banco Mundial

Câmbio flutuante

No câmbio fixo em 1998, o governo federal, por meio do Banco Central, precisava manter a taxa de câmbio a um valor fixo, como foi decidido durante o Plano Real.

Com isso, os investidores perceberam que o valor do dólar americano no Brasil não era fiel ao mercado, mas sim artificial e manipulado, mas continuavam comprando dólares. Por isso, o Banco Central precisava cada vez mais vender dólares, de forma a igualar oferta e demanda e deixar o preço da moeda estável na taxa pré-definida.

O problema é que o governo federal estava abrindo mão de muitos dólares ao vendê-los exageradamente, e isso prejudicava o balanço de pagamentos do país, pois a evasão de reservas internacionais (dólares) era muito maior que a entrada dessas. 

Consequentemente, o governo federal precisava elevar as taxas de juros do país, a fim de atrair investidores que depositassem dólares aqui e, assim, o Banco Central pudesse regular a taxa fixa de câmbio e estabilizar o balanço de pagamentos.

Foi nesse sentido que Armínio Fraga disse que a taxa de juros controlava a balança de pagamentos.

Desse modo, estabeleceu-se a política de câmbio flutuante no país e, a partir de então, o preço das moedas estrangeiras seria definido a partir das leis de oferta e demanda do mercado, sem a interferência do Banco Central. 

Com isso, o balanço de pagamentos deixa de ser tão influenciado pela taxa de juros, e passa a depender, em maior parte, dos preços de mercado das moedas internacionais.

Clique aqui para ler nosso post sobre câmbio fixo x câmbio flutuante.

*É importante ressaltar que hoje, o Brasil atua por meio da política de bandas cambiais. Dessa forma, quando o Real desvaloriza ou valoriza em valores extremos, o Banco Central tende a interferir apenas na intenção de evitar grandes danos.

O Tripé é bom para o país?

A princípio, o Tripé Macroeconômico é uma decisão econômica adotada por muitos países do mundo, mas não é um consenso geral.

Por estipular medidas de austeridade que barram o gasto governamental (meta fiscal) e medidas liberalizadoras de mercado (câmbio flututante), alguns economistas criticam a ferramenta.

É o caso dos economistas keynesianos, que acreditam que os gastos governamentais podem gerar uma renda maior para o país, e não devem ser limitados. Explicamos mais sobre a visão da Demanda Agregada de Keynes nesse post.

Ainda mais, muitos países, mesmo cumprindo a lei orçamentária, gastam muito, o que vai contra a política de austeridade do tripé, como é o caso do Brasil.

No entanto, a meta de inflação se mostrou eficiente para o país. Além disso, é possível notar que os objetivos do tripé foram parcialmente cumpridos: hoje, a taxa de câmbio controla o balanço de pagamentos, e a taxa de juros controla a inflação.

Fizemos um guia rápido e simples para você entender melhor o tripé:

O que é tripé macroeconômico?
Fonte: Imagem criada por boletimeconomico.com.br. Favor não replicar sem os créditos.

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Entendeu o que é e para que serve o Tripé Macroeconômico?

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