O plano real foi uma das principais políticas econômicas da história do Brasil.

A população brasileira desde 1960 convivia com a inflação devido  planos anteriores de expansão e gastos do governo em infraestrutura. Porém na década de 80 a população passou a conviver com a hiperinflação.

A taxa de inflação já chegou a 2.477,15% ao ano em 1993.

O governo adotou sucessivos planos para tentar combater a hiperinflação.

  • Plano Cruzado I e II;
  • Plano Bresser;
  • Plano Verão;
  • Plano Collor I e II.

Esses planos com políticas de indexação dos salários e congelamento dos preços foram a fórmula do fracasso.

Como resultado desses fracassos, veio também um aprendizado para o novo plano que viria a seguir.

O Plano Real superou todos os demais planos e conseguiu definitivamente espantar o fantasma da hiperinflação do Brasil. Embora a inflação não tenha sido completamente erradicada, uma inflação controlada permite uma previsibilidade maior da economia.

A inflação prejudica principalmente os mais pobres. Ou seja, uma moeda instável diminui o poder de compra das pessoas que não tem como se proteger da inflação. Como era o caso dos mais ricos, que aplicavam seu dinheiro.

Nesse post vamos te explicar porque o plano real foi um sucesso, e como isso mudou sua vida.

O bom e velho economês

Nesse artigo vou acabar utilizando algumas palavras que parecem bem complicadas (coisa de economista), mas que na verdade são bem simples.

Vou te explicar o que eles significam, porque ao longo do post iremos falar muito sobre eles.

Antes de mais nada, o que é inflação?

Inflação na prática é o aumento generalizado dos preços, ou seja, não somente quando aumenta o preço de um produto no supermercado. Mas sim quando o preço da maioria dos bens e serviços que as famílias compram aumentam o preço.

Chamamos isso e cesta de bens de consumo.

O principal índice utilizado para calcular a inflação é o IPCA (Índice de preços do consumidor amplo). Ele leva em conta quais seriam os principais produtos comprados pelas famílias e calcula a elevação dos preços gerais de tempos em tempos.

Indexação e congelamento de preços

A princípio esses são conceitos que saltam os olhos, e parecem ser usados apenas por economistas mais experientes. Mas não, são bens simples.

Indexação é a correção de algum valor de acordo com a variação de um determinado índice. Nesse caso específico, foi o que houve na década de 80 e 90, os salários eram corrigidos de acordo com a inflação.

Isso se chamou naquela época “gatilho salarial“. Ou seja, sempre que a inflação no mês fosse mais de 20%, os salários eram reajustados à mesma taxa para “compensar as perdas” causadas pela inflação.

Já o congelamento de preços é quando por meio da lei, o governo determina o preço dos produtos na economia. Ou seja, na tentativa de impedir o aumento generalizado dos preços, o governo impõe aos produtores um preço máximo que podem cobrar pelos seus produtos.

Inflação inercial

A inflação inercial é causada pelas expectativas de inflação. No caso, quando o país passa por um momento de hiperinflação como foi o caso, a previsão do futuro fica quase impossível.

Em resumo, quando a inflação está descontrolada não tem como saber qual o valor daqui a 1 ano de alguma coisa. A falta de previsibilidade prejudica principalmente os empresários, que precisam calcular os custos de produção.

Então quando as expectativas sobre a inflação são altas, para não sofrerem prejuízo aumentam os preços dos seus produtos. Esse aumento dos preços causa inflação.

Então não estranhe quando ouvir dizer que “expectativas de inflação geram mais inflação“.

Déficit

O déficit é quando as contas do governo estão no vermelho.

Os gastos do governo vão desde a folha salarial dos funcionários públicos até as obras feitas pelo estado. Já a receita vem em sua maioria dos impostos pagos pela população.

Em síntese, quando existe um déficit do governo significa que ele gastou mais do que arrecadou. Esse descontrole nas contas governamentais é um dos principais fatores que geram a inflação.

Porque o déficit é na verdade uma dívida, então para pagar essa dívida o governo tem que imprimir mais moeda para pagar seus credores. Essa impressão de moeda faz com que aumente a quantidade de moeda em circulação na economia.

Mais moeda na economia faz com que os preços aumentem, ou seja, significa também inflação.

A hiperinflação

Consideramos hiperinflação quando ocorre um aumento desenfreado dos preços de uma economia. Ou seja, uma inflação mais rápida e descontrolada.

No Brasil a hiperinflação ocorreu entre o final da década de 80 e início da década de 90.

Nesse período a moeda se desvalorizava tão rápido, que em março de 1990 a inflação no mês atingiu seu pico de 82,39%. Consequentemente algo que custava 1 cruzeiro no início do mês, custou 1,82 cruzeiros no final do mesmo mês.

IPCA-Mensal-Antes-Plano-Real
Pico da inflação mensal em 1990

Portanto como a moeda não mantinha seu valor, as pessoas assim que recebiam o salário o gastavam quase que todo nos supermercados. A estratégia era estocar alimentos na despensa, porque no final do mês eles estariam bem mais caros.

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Quando dizemos que a inflação ataca principalmente os pobres, um dos motivos principais dessa afirmativa é a falta de proteção contra a inflação. As pessoas ricas podiam aplicar seu dinheiro para se defenderem da inflação, pois recebiam juros.

Enquanto isso os mais pobres só perdiam poder de compra.

Todo o país sofria com a incerteza por causa da hiperinflação. O fato da moeda não manter seu valor prejudicava também os produtores, que para não sofrerem perdas aumentavam os preços.

Causando assim então mais inflação. A chamada inflação inercial.

Planos anteriores que deram errado

Antes do plano real o Brasil tentou, sem sucesso, combater o “dragão da hiperinflação“. Foram um total de de 6 planos que tiveram um sucesso transitório.

Em síntese, o principal problema dos planos anteriores foi tentar combater a inflação (o sintoma) em vez de combater o desequilíbrio fiscal do governo (a doença).

Quando a dívida do governo é alta e descontrolada, existe a necessidade de imprimir moeda para financiar os gastos. A impressão de moeda em si, ou seja, a inserção de dinheiro na economia gera inflação.

O plano real viria com o objetivo de tratar da doença, e não só dos sintomas.

Outros dois dos principais fatores que causaram o breve sucesso dos planos foram as propostas de congelamento dos preços e indexação dos salários com base na inflação.

O congelamento dos preços fez com que os produtores não conseguissem repassar o aumento dos custos para os consumidores, então diminuíram a produção. Isso causou um desabastecimento da oferta de produtos na economia.

Da mesma forma os “gatilhos salariais” criaram expectativas de que a inflação poderia voltar, assim causando mais inflação.

Lembra do que eu disse antes?

Então, expectativas de inflação geram mais inflação.

O Plano Real

O Plano Real antes de mais nada foi diferente dos outros planos porque focou principalmente nas causas da inflação. Ou seja, no descontrole dos gastos do governo.

A primeira etapa do plano foi marcada pela diminuição dos gastos do governo.

Lembra que falamos da dívida externa impagável? Então, ela foi negociada naquele momento.

Dessa maneira o Brasil arrumou a casa e poderia agora atrair investimento internacional.

Além do combate às causas da inflação, um dos motivos para o sucesso do plano real foi a transparência com a população. Todos os passos do plano foram divulgados e aceitos pelo povo.

Colocando o plano em prática

O Plano Real seguiu da proposta de dois grandes economistas brasileiros, Pérsio Arida e André Lara Resende. A proposta ia contra o congelamento dos preços e a indexação do salário.

A ideia era então uma política cambial em que a moeda não perdesse o valor em relação ao dólar. Dessa maneira a população se acostumaria com uma moeda mais “estável” e afastaria as expectativas de inflação.

Lembra do dissemos sobre expectativas de inflação né? Elas e os gastos demasiados do governo estão entre as principais causas da inflação.

Foi implementada então uma moeda virtual, a URV (Unidade Real de Valor).

O que foi a URV?

A URV não era de fato uma moeda, mas uma unidade de conta que acompanhava as flutuações do dólar (uma moeda mais estável).

Essa parte do plano era crucial. A população teria que aderir a conversão proposta pelo governo.

Em síntese, a moeda em circulação ainda era o cruzeiro real mas os preços seriam marcados em URV. Dessa maneira o valor do cruzeiro real que se desvalorizava, era convertido em URV que se mantinha estável.

A URV foi aceita pela população porque diferente do cruzeiro, se desvalorizava à taxas muito pequenas.

Tanto os produtos das prateleiras quanto os salários, passaram a usar a moeda virtual como base de valor.

Dessa forma a URV abriu espaço para que em 1º de junho de 1994 o Real entrasse em circulação. As pessoas trocaram seu dinheiro em circulação (cruzeiro real) pela nova moeda (o real).

Quando entrou em circulação o real valia 1 URV ou CR$ 2.750.

Junto com a nova moeda foram implementadas séries de medidas para manter a estabilidade dos preços. Da mesma forma também no governo de Fernando Henrique Cardoso, foram criados meios para controlar os gastos do governo.

Impacto do Plano Real na sua vida

O Plano Real conseguiu com sucesso afastar o dragão da hiperinflação.

“Dragão da inflação” não é um apelido dado por acaso.

Em um país acometido pela hiperinflação o clima é de desespero entre a população. O salário das pessoas desvaloriza durante o percurso da casa para o supermercado. Ninguém tem noção de quanto o dinheiro vai valer até mesmo em um curto período de tempo.

Nem mesmo os bancos, que após a estabilização da moeda muitos quebraram porque dependiam das chamadas “receitas inflacionárias“. Eram basicamente receitas oriundas da inflação e que desapareceram da noite pro dia com o plano real.

O Real fez com que a população acordasse na manhã seguinte e olhasse para os preços no supermercado sem ter medo do fantasma da hiperinflação. As pessoas podiam pensar financeiramente a longo prazo, agora que a moeda tinha valor.

O impacto na população foi tão grande que fez com que emergisse a classe média, com possibilidade de planejar o futuro.

Uma das principais contribuições após o plano real foi a criação de meios para controlar os gastos do governo. Foram eles a Lei de Responsabilidade Fiscal e a adoção do Tripé Macroeconômico.

A Lei de Responsabilidade Fiscal impõe um limite para os gastos do governo de acordo com sua receita.

O tripé macroeconômico é um conjunto de três conceitos que tem como objetivo impedir a volta do dragão da hiperinflação:

  • Meta fiscal (superávit orçamentário);
  • Meta de inflação;
  • Câmbio flutuante.

Todas essa reformas, assim como as construção de uma moeda estável, foram as razões para o crescimento subsequente da economia Brasileira chegando até o patamar de 6° potência mundial.

E aí, o que achou do post? Não deixa de comentar 😉