Post Punk e política britânica: entenda a relação

Aqui no Boletim Econômico já falamos sobre qual foi o impacto político do Movimento Punk. Contudo, este movimento foi se esvaziando com o tempo, pois deixou de atender sua premissa original e passou a ser algo mainstream.

Além disso, a eleição de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra do Reino Unido em 1979 e a guinada neoliberal que o país vive até o fim de seu mandato também influenciam esse cenário. Sua eleição também marcou o fim do período mais guiado à socialdemocracia no Reino Unido.

Por isso, no artigo de hoje vamos falar um pouco da relação destes dois elementos, e como isso impactou o Post-Punk. Vamos lá?

A Era Thatcher (1979-1990)

Em 1979, Margaret Thatcher, do Partido Conservador, se torna a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira Ministra britânica. No mesmo ano, se inicia uma longa era neoliberal no país, cujos efeitos ressoam até os dias de hoje. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, dois anos mais tarde o republicano Ronald Reagan (1981-1989) é eleito presidente dos Estados Unidos.

Ambos os eventos, junto com a queda gradativa da União Soviética que ocorre de vez em 1991, ajudam a consolidar o Neoliberalismo no Sistema Internacional. Contudo, não é sobre isso que falaremos hoje.

Impacto político do post punk
Margaret Thatcher durante os anos 1980.

O processo de desindustrialização do norte da Inglaterra, o fim do Estado de bem-estar social no Reino Unido e diversas privatizações ocorreram durante seus governos. Manchester e Birmigham são exemplos de cidades afetadas por estas políticas. E não é coincidência que sejam o berço de algumas das principais bandas do período, como The Smiths e Au Pairs, respectivamente.

Além disso, o seu governo também teve como característica uma política externa agressiva. Thatcher apoiava o regime de Augusto Pinochet no Chile, uma das mais sangrentas ditaduras latino-americanas. Também podemos lembrar da Guerra das Malvinas (1982) contra a Argentina, que durou dois meses e um saldo de mais de 900 mortos, em sua maioria, argentinos.

Por último, Thatcher não apenas se negou a estabelecer sanções contra a África do Sul como represália pelo Apartheid, como também chamou Nelson Mandela de “pequeno terrorista sujo” (“grubby little terrorist”).

Em suma, foi neste contexto que emergiu o Post-Punk.

Música como forma de expressão

Como resultado da oposição a seu governos, muitos artistas usaram da arte como maneira de protestar, e Thatcher teve um amplo impacto na produção cultural britânica da época. Isso pois as mudanças sociais e econômicas geradas neste período foram enormes, e afetaram, novamente, a juventude em grande escala.

E assim como o Punk, o movimento Post-Punk usou sua arte como uma maneira de se posicionar e expressar as suas aspirações. Logo de antemão, temos como alguns dos exemplos mais famosos as faixas “Margaret on the Guillotine” (1988) de Morrissey, “Tramp the Dirt Down” (1989) de Elvis Castello e “Town Called Malice” (1982) dos The Jam.

Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Paul Foad, ex-membro da banda Au Pairs, disse “[…] assim como a política pessoal de relacionamentos, os anos Thatcher nos deram bastante material para comentar sobre [em suas composições].”

A frase sintetiza muito bem as composições da época, que expressavam não somente esse sentimento de insatisfação, mas também suas aspirações e angústias do momento em que viviam. Além disso, ao contrário do punk, o Post-Punk deu um espaço maior para discussões sobre raça e gênero.

The Troubles e o Post-Punk

Outro assunto recorrente nas composições era o conflito entre as duas Irlandas, chamado de “The Troubles” ou “Conflito da Irlanda do Norte“, que durou 30 anos, ocupando uma importante parte da agenda política britânica da época.

O conflitou começou em 1968 durante a campanha do Northern Ireland Civil Rights Association contra a discriminação contra a minoria católica (ou nacionalista) na Irlanda do Norte. A discriminação acontecia tanto pela população quanto pelas autoridades protestantes (ou unionistas).

Soldados e civis na Irlanda do Norte durante o conflito (Getty Images)

Antes de mais nada, vale lembrar que esse foi um conflito de caráter étnico-nacionalista e não religioso. Em resumo, nacionalistas eram aqueles que apoiam que a ilha seja unificada na República da Irlanda. Enquanto os unionistas querem permanecer membros do Reino Unido. O conflito terminou apenas em 1998 com o Tratado de Belfast.

Músicas de protesto foram feitas por diversos artistas de diferentes gêneros, como “Give Ireland Back to the Irish” (1971) do grupo Wings, e “Sunday Bloody Sunday” (1983) do U2. No Post Punk temos como exemplo a música “Armagh” (1981) da banda Au Pairs, que leva o nome da menor cidade da Irlanda do Norte.

Diferenças com o Punk

Apesar do Punk ter sido um movimento percursor e que sem ele, nunca teria surgido o Post-Punk, ambos se diferenciam em alguns pontos. Tanto em sua linha de ação política quanto artística.

O Post-Punk incorporou mais elementos, como sintetizadores, à sua musicalidade, abandonando o riffles de guitarra e o estilo mais “rústico” do Punk. Além disso, o Post-Punk também permitiu a influência de outros estilos, como jazz, blues e eletrônica, o que no Punk era mais restrito, em geral.

“Heavens Knows I’m Miserable Now” do The Smiths, uma das principais bandas do Post-Punk britânico.

Do mesmo modo que por mais que ambos os movimentos contestem a ordem vigente e serem essencialmente de esquerda, o Punk se restringiu em revoltar-se com ela. Mas o Post-Punk vai além, desejando construir algo para substituir essa ordem.

Porém, novamente precisamos ter em mente que apenas é possível construir uma nova ordem após a anterior ser destruída. Ao mesmo tempo que uma revolta não-organizada, via de regra, é fadada ao fracasso.

Influências em outros estilos

Assim como o Punk, o Post-Punk foi um movimento muito importante para a indústria musical no século XX. Os elementos incorporados à sua musicalidade mudaram a maneira de fazer música.

Além disso, se não fosse o Post-Punk hoje a música Indie não existiria. O movimento que ganhou muita força durante os anos 2000 e 2010 é um descendente direto deste estilo.

Ademais não foi apenas musicalmente, muito da ideologia do DYI (“Do It Yourself” ou “faça você mesmo”) vem do Post-Punk. Afinal, o termo “indie” vem da abreviação de “música independente”.

Arctic Monkeys, uma das mais renomadas bandas do indie inglês atualmente.

Por sua vez, a origem do DIY vem da crítica de artistas do Post-Punk aos artistas Punks que assinaram com grandes gravadoras, como o Sex Pistols e o The Clash. Isso porque acreditavam que estariam limitando sua arte e se vendendo em nome do dinheiro, e assim integrando o sistema que desejavam combater.

  • Recomendação para saber mais sobre o Post-Punk: “Post-Punk, Politics and Pleasure in Britain” de David Wilkinson.

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